Fórum Internacional dos Produtores de Agroenergia discute soluções para a sustentabilidade e rentabilidade dos produtores de cana, milho e beterraba açucareira

Publicado em 05/09/2017

RPANews, 28 de agosto/2017

Tendo em vista a importância dos setores de cana, milho e beterraba açucareira para a economia mundial, a Organização dos Plantadores de Cana da Região Centro-Sul do Brasil (ORPLANA), em parceria com a consultoria Datagro, realizou no último dia 23 de agosto a primeira edição do Fórum Internacional dos Produtores de Agroenergia. O evento, conduzido dentro da Arena do Conhecimento Agrícola da Fenasucro & Agrocana 2017, maior feira de tecnologia sucroenergética do mundo, reuniu mais de 300 produtores de cerca de 40 países, além de profissionais de usinas, pesquisadores, consultores, executivos de empresas ligadas ao segmento e autoridades e lideranças públicas.

Dividida em cinco painéis, a programação do evento contou com a participação de palestrantes nacionais e estrangeiros que apresentaram tecnologias inovadoras que poderão contribuir para a prosperidade do produtor rural. Além disso, o Fórum foi palco para intensos debates sobre desafios de planejamento de produção, associativismo, gestão, custos de produção, entre outros assuntos.

Para o presidente da ORPLANA, Eduardo Vasconcellos Romão, a primeira edição do Fórum foi uma excelente fonte de informação para os produtores rurais brasileiros e internacionais que estavam sedentos por conhecimento. “Os fornecedores serão fundamentais caso o Brasil queira honrar o acordo firmado na COP 21. Dessa forma, eventos como este são de extrema importância para a transferência de tecnologia que possa os auxiliar a maximizar suas produções.”

Já o presidente da Datagro, Plinio Nastari, se diz honrado e satisfeito de ter reunido, num só evento, aqueles que estão na base da produção, os produtores agrícolas que dão suporte e vida a uma indústria excepcional como a canavieira e que tem diante de si a oportunidade de enfrentar um enorme desafio pela frente: mostrar ao mundo que tem nas mãos a solução para os problemas que afetam a humanidade. “Um dos exemplos é o fato de podermos gerar energia com sustentabilidade, ou seja, atendendo as restrições e objetivos de preservação do meio ambiente e, ao mesmo tempo, gerando empregos.”

Um dos pontos altos do evento foi uma homenagem ao presidente da Associação dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo (CanaOeste) e ex-presidente da ORPLANA, Manoel Ortolan. Na ocasião, foi exibido um vídeo com depoimentos de diversas personalidades do agronegócio nacional e de familiares e amigos de Maneco. Além disso, foi entregue um quadro com uma pintura que reproduz a fachada do prédio principal da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ) da Universidade de São Paulo (USP), local marcante na vida profissional e pessoal de Ortolan.

Durante a homenagem, estava presente no palco o diretor da ORPLANA, Eduardo Romão; o Secretário de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, Arnaldo Jardim; o diretor presidente da Cooperativa dos Plantadores de Cana do Oeste do Estado de São Paulo (Copercana), Antonio Eduardo Tonielo; o diretor da Datagro, Plinio Nastati; a ex-secretária de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo, Monika Bergamaschi; e o gestor executivo da ORPLANA, Celso Albano. Em sua fala, Eduardo Romão ressaltou o espírito associativista e cooperativista de Maneco, afirmando que foi uma honra sucedê-lo na presidência da entidade.

Será que é um bom negócio produzir beterraba açucareira no Brasil?

A Europa também produz açúcar, mas é da beterraba açucareira e não da cana. Os países europeus, principalmente a França, respondem por 80% da produção mundial de açúcar de beterraba, extraído pela primeira vez em 1747. Desde então, a produção de açúcar a partir da cultura aumentou 20 vezes.

O assunto em questão foi amplamente debatido durante o 1º Fórum Internacional dos Produtores de AgroEnergia. Num primeiro momento, o economista da World Association of Beet & Cane Growers (WABCG) da França, Timothé Masson, falou sobre os desafios e produtividade da produção mundial de beterraba açucareira.

Segundo ele, existem muitas oportunidades para aqueles que desejam cultivar beterraba açucareira em climas tropicais. “Por ser uma cultura de inverno, ela pode ser associada com culturas de verão. Além disso, pode produzir uma maior quantidade de açúcar do que a cana-de-açúcar, entregando até 15 toneladas por hectare.”

Masson falou, ainda, sobre as dificuldades para a implantação da cultura. Uma delas é o fato de que a beterraba não pode ser cultivada incessantemente, senão, doenças irão surgir nas lavouras. A solução é fazer rotação com outras culturas, no mínimo, a cada quatro anos.

Outro grande desafio é relacionado ao aumento de produtividade, que ainda não atingiu o potencial genético. Atualmente, as maiores produtividades são encontradas na França e Alemanha, com 90 toneladas por hectare cada. Em seguida, vem os Estados Unidos (70 ton/ha), Marrocos (60 ton/ha) e Rússia e China (40 ton/ha).

Entretanto, esses números tendem apenas a subir, já que a taxa de crescimento do melhoramento de beterraba é de 2% ao ano, enquanto que a taxa de crescimento para o melhoramento da cana-de-açúcar é de 0,5 % ao ano. Atualmente, existem grandes investimentos na área de pesquisa para novas variedades de sementes de beterraba para elevar a produção de 100 toneladas por hectare para 150 toneladas, o que deixa o açúcar de beterraba cada vez mais competitivo em relação ao de cana.

O economista falou, ainda, sobre o problema com os custos de produção, elevados em função do fato de que os produtores não poderem produzir suas próprias sementes, tendo que adquiri-las no mercado. “Na França, cerca de 30% dos custos variáveis provem das sementes”, finaliza Masson.

Já a colheita da beterraba foi o tema da palestra de Vinícius Casselli, diretor da VSZ da Alemanha. Segundo ele, os altos custos com mão-de-obra para a colheita fizeram com que o mercado corresse para entregar soluções que minimizassem esses custos. O resultado foi o surgimento de colhedoras que conseguem colher até nove linhas simultaneamente. Um avanço significativo, levando em conta o fato de que, até então, a colheita mecanizada era feita linha por linha.

“Essa mudança contribuiu para um enorme aumento de produtividade. Como são muito eficazes, e um pouco caras, essas máquinas não podem ser usadas em nível de fazenda única, ou seja, a maior parte delas é comprada por consórcio de até 50 produtores.”

Ganho de produtividade por meio do Sistema Meiosi + MPB foi um dos destaques do Fórum

O primeiro painel do Fórum Internacional dos Produtores de Agronergia debateu a tecnologia de Mudas Pré-Brotadas (MPB) aliada ao sistema de Meiosi (Método Inter Rotacional Ocorrendo Simultaneamente). Para falar sobre o assunto, subiu ao palco um dos maiores especialistas da área: o diretor do Centro de Cana do Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Marcos Landell. Na ocasião, ele explicou ao público presente que a MPB é uma tecnologia de multiplicação que pode contribuir para a produção rápida de mudas, associando elevado padrão de fitossanidade, vigor e uniformidade de plantio. Outro grande benefício está na redução da quantidade de mudas que vai a campo. Para o plantio de um hectare de cana, o consumo de mudas cai de 18 a 20 toneladas, no plantio convencional, para apenas duas toneladas no MPB. “Isso significa que 18 toneladas que seriam enterradas como mudas irão para a indústria produzir álcool e açúcar, gerando ganhos”, afirma.

A tecnologia é direcionada a aumentar a eficiência e os ganhos econômicos na implantação de viveiros, replantio de áreas comerciais e possivelmente renovação e expansão de áreas de cana-de-açúcar.

Em seguida, subiu ao palco o produtor Ismael Perina Júnior, um dos proprietários da Fazenda Belo Horizonte, em Jaboticabal, SP. Logo no início de sua fala, ele falou sobre como conheceu o sistema de MPB. “Há anos atrás, estava jogando 25 toneladas de cana por hectare no sulco de plantio. Foi neste momento que vi que uma revolução era necessária.”

Em uma conversa com Marcos Landell, o produtor foi apresentado, então, as MPBs. Foi paixão a primeira vista. “Essa tecnologia foi a maior revolução que o setor já passou. Quem não está indo nessa linha, está perdendo muito.”

Perina, aliás, foi um dos pioneiros na adoção do sistema de Meiosi com MPB, cuja proposta é tombar uma cana sadia em solos revigorados por outras culturas, turbinando, dessa forma, seu desempenho. “Quando adotei esse sistema, há quatro anos, minha taxa de multiplicação era de 1×7 (1 linha de cana plantada com MPB gerava muda para setes linhas). Hoje, minha taxa de multiplicação já alcança 1×30.”

Por fim, Perina afirmou que o sistema Meiosi e MPB pode ser adotado por todos os produtores de cana, independente do tamanho.

Usimat já processa 1200 toneladas de milho por dia na entressafra da cana

A produção de milho consorciada com a de cana-de-açúcar também foi um tema bastante debatido durante o Fórum Internacional dos Produtores de Agroenergia. Na ocasião, a Usimat, localizada em Campos de Júlio, MT, falou sobre sua experiência na área, já que foi pioneira, ainda em 2011, a produzir etanol de milho no país, através do projeto da Usimat Flex. De lá para cá, a empresa vem investindo no aprimoramento das operações e, na safra passada, já conseguiu produzir 83 milhões de litros de etanol de milho. “O milho veio complementar a produção de cana-de-açúcar. Começamos moendo 500 toneladas por dia durante a entressafra da cana. Hoje, este número já saltou para 1200 ton/dia”, conta Vital Silva Nogueira, gerente industrial da Usimat.

Segundo ele, uma das grandes vantagens do etanol de milho é a possibilidade de produção 24 horas por dia e 365 dias por ano, independente do clima. Outras vantagens incluem baixo custo de implantação, alto índice de aproveitamento do tempo, baixo custo operacional, pouca mão-de-obra, aproveitamento do pessoal existente na planta, aumento da escala de produção do etanol, baixo custo de manutenção mecânica e elétrica, processo com mínima variação operacional, flexibilidade nas paradas e retomadas de produção, utilização da palha da cana como biomassa e utilização de energia própria durante a entressafra da cana

Empresas e centros de pesquisa apresentaram novidades tecnológicas para o público do Fórum

Um dos painéis do evento foi reservado para as empresas de tecnologia que apresentaram ao público suas últimas inovações para a produção de cana-de-açúcar. O primeiro palestrante foi o proprietário da FCN Tecnologia, Felix de Castro Neto, que destacou o CentraCana, um equipamento para corte basal, desponte e aleiramento de duas fileiras simultâneas de cana crua ou queimada. Trata-se de um equipamento apto ao corte de canaviais situados em terrenos com topografia inadequada ao trânsito operacional seguro da colhedora combinada, porém próprios ao trânsito sem risco de tratores modelo PCR, preferencialmente 4×4 na faixa de 100 HP de potência, com ou sem carregadora de cana nele instalada.

Em seguida, a Valtra apresentou a BE1035 Mudas, primeira colhedora de mudas de cana do mundo. A máquina utiliza um exclusivo sistema de esteiras de borracha substituindo os rolos transportadores, reduzindo em 46% os pontos de atrito das mudas no equipamento. O resultado da tecnologia é a preservação das gemas, parte responsável pela germinação de novas plantas.

A grande novidade da John Deere foi o monitor de colheita, tecnologia voltada para tomadas de decisão cujo objetivo é otimizar a operação em tempo real. O gerente de contas estratégicas da empresa, Carlos Graminha, explica que o monitor é composto por sensores ópticos, posicionados no elevador, que irão captar imagens do material que está subindo pelo elevador. Através dessas imagens, será possível identificar o que é cana e o que é impureza vegetal. “Os volumes obtidos são transformados em massa, ou seja, em toneladas de cana e porcentagem de impureza vegetal. A partir desses dados, várias informações serão geradas para o operador, em tempo real, no monitor.”

Já a Case IH apresentou seu trator autônomo. Com mais de 300 cv de potência, a máquina é baseada no modelo Magnum, mas tem visual futurista, sem cabine, e executa as mesmas tarefas de um trator convencional, sendo controlada remotamente por um tablet ou computador. Podendo funcionar 24h por dia, o trator autônomo oferecerá aos agricultores ainda mais eficiência operacional para tarefas como preparo do solo, plantio e pulverização. Além disso, ele ajudará a suprir uma demanda por mão de obra qualificada durante a temporada de plantio, que é um desafio constante em diversas propriedades.

Por fim, o coordenador da divisão agrícola do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), Henrique Junqueira Franco, apresentou projetos da Entidade que buscam resolver os gargalos da colheita mecanizada de cana crua. Um deles trata da inclusão de um triturador de palha montado dentro da colhedora de cana. O engenheiro do CTBE explica que a ideia é adicionar dois conjuntos de facas, um com 17 e outro com 19, no mesmo eixo do extrator primário, peça que atua na limpeza dos colmos, eliminando impurezas minerais e vegetais, porém, girando no sentido oposto. Essas facas, segundo ele, irão triturar a palha, deixando-a com apenas 12mm. Posteriormente, a expulsão ocorrerá de forma tradicional.

Fonte: Cana Online

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