Estudo do Projeto SUCRE demonstra que a expansão dos canaviais não tem relação com o desmatamento no Brasil

Publicado em 02/08/2017
UDOP, 31 de julho de 2017

O Projeto SUCRE participou, em meados de junho, de um dos principais congressos mundiais de pesquisa e desenvolvimento na área de biomassa, o 25th European Biomass Conference and Exhibition (EUBCE 2017), em Estocolmo. Foram apresentados pelo então Diretor Nacional do Projeto, Regis Leal, e pela pesquisadora, Thayse Hernandes, três trabalhos, dois de forma oral e o terceiro por pôster.

O SUCRE é um dos projetos do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), pertencente ao Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM). O objetivo principal do Projeto é aumentar a geração de eletricidade com baixa emissão de gases de efeito estuda na indústria de cana-de-açúcar por meio do uso da palha produzida durante a colheita. Uma das atividades previstas foi avaliar se a expansão da cana-de-açúcar tem ou não relação direta com o desmatamento no Brasil.

Esse estudo demonstra que as áreas de expansão de cana-de-açúcar no Brasil não estão invadindo regiões do zoneamento agroecológico, demarcado pelo governo federal em 2009, através do decreto de número 6.961. O trabalho foi destaque no congresso e um dos selecionados para ser submetido na revista científica Biomass and Bioenergy.

Essa pesquisa consistiu em avaliar a nível nacional se a expansão da cana está ocorrendo dentro do zoneamento agroecológico instituído pelo governo e, de forma específica, monitorar duas regiões que apresentam crescimento nas áreas de cultivo da cutura, nos estados de São Paulo e Goiás. Foram feitos estudos sobre a dinâmica das mudanças de uso do solo e de que forma as emissões de carbono do solo são influenciados por essas alterações.

O segundo estudo apresentado faz um panorama dos impactos da expansão da cana-de-açúcar no Brasil sobre os recursos hídricos. Conduzido pela pesquisadora do CTBE e assistente de gestão do SUCRE, Thayse Hernandes, o trabalho abordou a necessidade de considerar os processos hidrológicos nos efeitos do cultivo de biomassa sobre os recursos hídricos. O estudo sugere o uso de um modelo de avaliação fundamentado na bacia hidrográfica, de forma a integrar os processos à unidade de gerenciamento considerada na contabilização dos impactos.

“O trabalho foi ao encontro com o sentido de discussões fomentado pelo Joint Research Center (JRC), o braço da comissão europeia para pesquisa científica”, contou Hernandes. Segundo a pesquisadora, o JRC fomentou discussões sobre o domínio dos estudos baseados em Avaliação de Ciclo de Vida (ACV) e reiterou a necessidade de utilizar outros tipos de modelagem que envolvam os processos biogeoquímicos. Conforme explica a assistente de gestão do SUCRE, ACV é um conjunto de métodos e modelos que possuem o objetivo de quantificar os impactos da produção de um certo produto. “É super importante [a ACV], porque oferece uma visão do todo, porém, se considerada de forma isolada, não responde algumas questões essenciais na avaliação da sustentabilidade de produção de biomassa, principalmente no caso da avaliação dos recursos hídricos, cujos componentes locais, como clima e solo, têm grande influência sobre os resultados”, explica Hernandes.

Esse congresso, que contou com cerca de mil participantes, é um evento que, de acordo com Hernandes, aponta direções e caminhos que devem nortear as pesquisas científicas na comunidade de biomassa e bioenergia. Além das questões levantadas sobre a Avaliação de Ciclo de Vida, a pesquisadora apontou a biodiversidade como outro foco de discussões conferido pelo JRC.

Para o coordenador do Projeto Regis Leal, o evento deixou claro que sem a bioenergia não será possível alcançar as metas de redução das emissões de gases do efeito estufa para reduzir o aquecimento global, estabelecidas na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática de 2015 (COP-21), realizada em Paris. “A mensagem que esse congresso deixou para mim foi de que não é possível existir um futuro sustentável sem a bioenergia“, constata Regis. Segundo o coordenador, é importante lembrar a grande diferença entre a bioenergia e fontes como eólica e solar, ambas crescentes nos últimos anos. Enquanto essas duas últimas são fontes intermitentes, que variam de acordo com os fenômenos atmosféricos, a energiaa partir da biomassa é uma fonte constante, que pode ser gerada de acordo com a demanda. “A medida que as matrizes energéticas ficam muito dependentes de energias intermitentes, o equilíbrio da rede vai depender muito das formas de geração de base, que são as fontes de energia a partir de hidrelétricas, energia fóssil ou bioenergia“, explica.

Share on FacebookTweet about this on TwitterShare on Google+Email this to someone