Entrevista – Antônio José Roque da Silva

Publicado em 20/08/2009

20/08/2009 – Informe ABIPTI

Em meio a busca por novos projetos e parcerias empresariais e de desenvolvimento tecnológico e de inovação, Antônio José Roque da Silva assume o Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) com novas perspectivas e prioridades.

Na entrevista concedida ao Informe ABIPTI, ele destaca as principais ações de sua gestão para 2009 e revela que a nova Fonte de Luz Síncrotron, que começa agora a ser projetada, é conseqüência natural de um processo de amadurecimento e evolução da capacidade técnico-científica do país em áreas de pesquisas de materiais.

Quais serão as prioridades da sua gestão?
O Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS) é aberto a usuários e precisa criar continuamente condições para que pesquisadores do Brasil e do exterior possam realizar experimentos que exigem equipamentos de grande porte e altamente especializados. Portanto, minha gestão buscará meios para propiciar a expansão necessária, que é permanente na instituição. Isto inclui, por exemplo, construir e instalar novas Linhas de Luz, instrumentação científica que permite aplicar raios-x ou ultravioleta emitidos pela Fonte de Luz Síncrotron em amostras de materiais estudados por cientistas.

Também coloco como prioridade a busca por novos projetos que exigem parcerias empresariais, de desenvolvimento tecnológico e inovação. Atualmente, há oito contratos em andamento e teremos que nos capacitar para atender novas demandas que estão surgindo e que nós mesmos estamos estimulando. Há um imenso universo a ser desbravado, por exemplo, com a exploração de petróleo na camada do pré-sal, e isto exigirá desenvolvimento de competência em instrumentação e criação de novos materiais. Destaco igualmente como prioridade o desenvolvimento do projeto da segunda Fonte de Luz Síncrotron, cujos primeiros passos ocorreram em 2008.

O projeto da nova fonte está em que etapa?
No momento, estamos em fase de estudos preliminares. O pré-projeto está pronto e a comunidade potencialmente interessada nesse novo equipamento está sendo chamada para debates técnico-científicos em eventos especialmente organizados para definir o modelo a ser adotado. Esse é um projeto que tem o aval do MCT, que já investiu R$ 2 milhões em 2008, e exigirá a aplicação de conhecimentos que somente uma equipe que foi capaz de projetar e construir a primeira Fonte de Luz Síncrotron do Hemisfério Sul, e até hoje única da América Latina, será capaz de levar adiante e com sucesso.

A Fonte de Luz Síncrotron que começa agora a ser projetada é conseqüência natural de um processo de amadurecimento e evolução da capacidade técnico-científica do país em áreas de pesquisas de materiais. Essa competência, em parte considerável, se deve ao projeto exitoso que o CNPq apoiou a partir de 1984 (Projeto Radiação Síncrotron, na gestão de Lynaldo Cavalcanti) e deu continuidade a partir de 1986 (gestão de Crodowaldo Pavan no CNPq, que passou a integrar a estrutura do MCT criado em 1985).

A opção de dotar o Brasil de um equipamento síncrotron e abrir com isto caminhos até então desconhecidos de pesquisa de classe mundial voltada para o conhecimento atômico dos materiais mostrou-se acertada. Hoje, quando falamos num novo equipamento síncrotron, isto deve ser percebido como conseqüência da mudança de status do Brasil no contexto das nações que estão subindo de posição no ranking dos produtores de conhecimento. Afinal, no mundo há cerca de 60 equipamentos síncrotrons e não por acaso estão, em maioria, localizados nos países que estão no topo deste ranking.

O senhor disse, em sua posse, que uma questão fundamental é atrair e reter novos pesquisadores de alto nível, além de motivar a equipe atual. Como isso tem sido feito?
O LNLS, como laboratório nacional, tem a missão de ser aberto a pesquisadores-usuários que vêm de outras instituições e, por essa característica, jamais terá uma pesquisa interna quantitativamente maior do que a produzida pelos pesquisadores de fora. Entretanto, é preciso manter uma pequena equipe científica, com produção própria e em padrão de competitividade mundial, sem o quê os pesquisadores que demandam o LNLS ficariam sem interlocutores adequados. Inclusive, vários trabalhos científicos – dos quase 2 mil já publicados entre 1997 a 2008 em revistas indexadas – ocorreram com a ação de grupos mistos, isto é, incluindo os pesquisadores do LNLS.

Para atrair novos pesquisadores de alto nível e manter os atuais motivados, temos que manter a qualidade da infraestrutura e dar mais condições de pesquisa para o pesquisador interno, desonerando-o de atividades que não são exatamente as relacionadas ao desenvolvimento de estudos. Outra ação é estimular os pesquisadores, e também técnicos e engenheiros, a realizar projetos desafiadores. É enxergar os problemas importantes da atualidade e incitar a equipe a resolvê-los.

Em sua opinião, quais são os principais desafios da instituição?
Diria que temos cinco grandes desafios hoje. O primeiro certamente é o desafio permanente do LNLS de operar e aperfeiçoar uma infraestrutura complexa que inclui a Fonte de Luz e vários outros laboratórios, como de microscopias, microfabricação e síntese química. Aqui são desenvolvidas pesquisas que, se não fosse o LNLS, só poderiam ser realizadas no exterior. Temos um padrão alto para execução de nossas atividades e precisamos aprimorar sempre a instrumentação (a confiabilidade da Fonte de Luz em 2008 foi de 98%) e a forma como atuamos. Os pesquisadores-usuários ao chegarem ao campus, em Campinas, precisam que tudo esteja funcionando muito bem. Somente no ano passado passaram pelo LNLS quase 2 mil cientistas, que realizaram 653 projetos de pesquisa em vários laboratórios.

O segundo desafio, certamente, é o projeto da nova Fonte de Luz. O terceiro é aproximar cada vez mais o LNLS do setor produtivo. O quarto é continuarmos divulgando a ciência, principalmente junto a estudantes e comunidade leiga. E o quinto é atuar de maneira simbiótica na nova estrutura da Associação Brasileira de Tecnologia de Luz Síncrotron (ABTLuS), organização social que opera para o MCT, o LNLS e que passou a operar também o Centro de Biologia Molecular Estrutural (CeBiME) e o Centro de Tecnologia do Bioetanol (CTBE). Tenho certeza de que o LNLS, o CeBiME e o CTBE podem realizar muita ações em conjunto, avançando sempre em áreas como física, química, biologia e ciências dos materiais.

Qual vai ser o orçamento do LNLS neste ano e onde esses recursos serão aplicados?
Para realizar pagamento de pessoal, suporte aos pesquisadores-usuários, aquisição de energia e de matérias-primas para construir instrumentação científica, além dos gastos gerais com manutenção e aperfeiçoamento, o contrato de gestão entre a ABTLuS e o MCT prevê para 2009 o montante de R$ 28,8 milhões, dos quais R$ 24,4 milhões já foram pactuados.

Em relação ao contrato de gestão, estamos ainda em negociação com o MCT, pois há também o projeto da nova Fonte de Luz, sendo necessário um repasse específico para que o LNLS possa enfrentar este grande desafio. No mais, para as atividades de pesquisa e inovação de um laboratório desta magnitude, são aportados também recursos de agências de fomento e de empresas, via convênios.

O LNLS é uma instituição associada à ABIPTI. Como o senhor analisa a importância da associação no cenário da CT&I do país?
O trabalho realizado pela ABIPTI é bastante relevante, pois busca abrir canais de comunicação entre instituições de pesquisa e empresas. Somos filiados de longa data da associação e certamente esta parceria crescerá no mesmo bom ritmo que vem crescendo também o programa de interação do LNLS com a indústria.

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