Engenheira detecta metais pesados em aterros sanitários de Campinas

Publicado em 31/10/2012

Jornal da Unicamp, em 29/10/2012

O aterro sanitário Delta, para onde é enviado praticamente todo o lixo do município de Campinas, possui altas concentrações de metais pesados em suas águas superficiais e subterrâneas. Elementos como chumbo, cromo, níquel, zinco e cobre também foram identificados em quantidades excessivas nos aterros Parque Santa Bárbara e lixão da Pirelli, ambos desativados há mais de duas décadas. Constatou-se ainda nos dois antigos aterros a presença de metais tóxicos oriundos do chorume, líquido proveniente do lixo em decomposição.

Os contaminantes, com alto nível de toxicidade e potencial cancerígeno, foram detectados pela engenheira ambiental Bruna Fernanda Faria. Ela defendeu tese de doutorado junto à Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo (FEC) da Unicamp. O estudo, que contou com financiamento do Conselho Nacional de Desenvolvimento Tecnológico e Científico (CNPq), foi orientado pela professora Silvana Moreira, do Departamento de Saneamento e Ambiente da FEC.

 O lixão da Pirelli foi a primeira área para destinação de resíduos no município. Com a implantação do aterro Santa Bárbara, em 1984, o espaço foi desativado, após 12 anos de funcionamento. Em 1992, as atividades do Santa Bárbara encerram-se com a implementação do Delta, que possui duas áreas – Delta A e Delta B. Localizado na região oeste de Campinas, o aterro vem ganhando sobrevida ano a ano com a prorrogação de suas licenças pelos órgãos ambientais. Situado junto à bacia do Córrego Piçarrão, o Delta recebe, atualmente, 27 mil toneladas de lixo por mês.

“As águas subterrâneas e superficiais formam os mananciais de onde são retiradas as águas para o consumo do município. Portanto, a presença de metais pesados, com teores acima dos valores máximos permitidos pela legislação, é capaz de colocar em risco a saúde da população”, alerta Bruna.

Nas águas subterrâneas do aterro Delta foram encontradas, por exemplo, concentrações de chumbo 100 vezes maiores do que aquelas admitidas pela legislação. A presença dos metais níquel e cromo ultrapassaram, em alguns casos, 10 vezes os padrões estipulados pelos órgãos ambientais. No estudo foram considerados como referências as concentrações máximas estabelecidas pelas normas da Companhia de Tecnologia de Saneamento Ambiental (Cetesb) e do Conselho Estadual de Meio Ambiente (Conama).

As águas subterrâneas apresentam naturalmente em sua composição a presença de metais, porém em concentrações baixas. Acumulações acima daquelas que podem ser consideradas naturais representam riscos à população e ao ecossistema, adverte a engenheira. “Tornam-se necessárias, portanto, medidas que evitem o contato direto e o consumo pela população das águas contaminadas. Sugerimos ainda ações para o controle da poluição, adequação dos sistemas de tratamento existentes e desenvolvimento de projetos mais eficientes”, propõe.

Técnica para análise

A orientadora do trabalho, a docente Silvana Moreira, explica que as amostras colhidas nos aterros foram analisadas no Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS). “Utilizamos a técnica analítica de fluorescência de raios X por reflexão total com radiação Síncrotron. Com ela, podemos detectar vários elementos em uma única medida. Outra grande vantagem é que com o uso da radiação Síncrotron pode-se obter uma sensibilidade analítica alta, permitindo quantificar elementos em níveis bastante reduzidos”, justifica.

A docente Silvana Moreira coordena na Unicamp linha de pesquisa que atua no emprego da florescência de raios X para a análise de amostras ambientais. Explorando a radiação Síncroton, esta técnica ainda é pouco utilizada no país, de acordo com ela. “Mas há múltiplos campos para aplicações, seja na biologia, medicina, química, meio ambiente e física médica”, considera. A radiação Síncrotron é gerada a partir de um acelerador de partículas instalado no LNLS, laboratório pioneiro nesta área no hemisfério sul.

Coletas

As coletas das amostras foram feitas entre agosto de 2009 e janeiro de 2011 em pontos localizados antes e depois dos aterros. “A proposta de trabalho foi fazer uma avaliação por um período longo, cobrindo uma época seca e outra chuvosa. De modo geral, metais como cromo, níquel, cobre, zinco e chumbo foram detectados em quantidades superiores às permitidas em praticamente todas as amostras”, confirma a docente.

Delta

Nas águas subterrâneas do Delta foi encontrada a presença excessiva de cromo em postos de coletas localizados após o aterro. O metal foi detectado em quantidades 10 vezes maiores do que o limite máximo permitido pela legislação, que é de 0,05 miligramas por litro. O cromo em altas quantidades é tóxico e cancerígeno. As principais atividades que liberam o composto para o meio ambiente são as emissões decorrentes da fabricação de cimento, soldagem de ligas metálicas, fundições, lâmpadas e fertilizantes.

O níquel, outro metal que em quantidades elevadas possui potencial carcinogênico e é capaz de afetar a estrutura do DNA, também foi encontrado em excesso nas águas subterrâneas do Delta. O metal, oriundo principalmente da fabricação de aço inoxidável, foi identificado em quantidades 10 vezes acima do permitido em pontos localizados antes e após o aterro.

O manganês, igualmente utilizado na indústria metalúrgica para fabricação de ligas, foi constatado em maiores concentrações nos postos de coletas localizados após o aterro. Já o chumbo, que mesmo em níveis mais baixos pode trazer sérios prejuízos à saúde, foi encontrado em quantidades até 100 vezes maiores do que as permitidas pelos órgãos ambientais.

Nos desativados

Mesmo tendo sido desativados há mais de duas décadas, o lixão da Pirelli e o aterro Santa Bárbara possuem quantidades excessivas de metais, como níquel, manganês e chumbo, tanto nas águas superficiais quanto subterrâneas, apontou o estudo. O chorume dos dois aterros também está contaminado com a presença de elementos tóxicos, sobretudo manganês, cobre e zinco. “No Pirelli, a pesquisa indicou a presença de contaminantes em pontos de coletas de águas subterrâneas localizados antes do aterro, o que poderia apontar a existência de outra fonte de poluição”, revela a docente Silvana Moreira.

Publicação

Tese: “Avaliação da presença de metais pesados nos locais de disposição de resíduos sólidos da cidade de Campinas (SP) empregando a fluorescência de raios x por reflexão total com radiação síncrotron”
Unidade: Faculdade de Engenharia Civil, Arquitetura e Urbanismo  (FEC)
Autora: Bruna Fernanda Faria
Orientador: Silvana Moreira
Financiamento: Conselho Nacional de Desenvolvimento Tecnológico e Científico (CNPq)

Repercussão: Jornal Brasil On-line,

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