Em São Carlos, estágio de verão atrai alunos da América Latina

Publicado em 06/04/2017
Jornal da USP, em 30/03/2017

 

Com apoio externo, projeto do Instituto de Física retornou em 2016 com sete estudantes

 

Quando esteve no norte do Peru há mais de cinco anos para participar de um congresso na área de biologia, o professor Richard Garratt conheceu muitos alunos de graduação entusiasmados com a carreira científica. Por outro lado, visitou uma instituição de ensino superior que oferecia uma infraestrutura tão limitada, que talvez pudesse prejudicar o interesse de estudantes pela ciência.

Durante a viagem, ao conversar com um aluno que viria a ser seu doutorando, Garratt soube de um programa organizado pelo Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), em Campinas (SP), que oferecia bolsas a alunos interessados em estagiar no local durante dois meses. Nessa época, o professor estava à frente da Comissão de Relações Internacionais (CRInt) do Instituto de Física de São Carlos (IFSC) da USP, onde hoje ocupa o cargo de vice-diretor.

Foi o programa de estágio do LNLS, somado à realidade divergente observada no Peru, que o estimulou a propor à direção do IFSC investir parte do orçamento da unidade em um programa de estágio semelhante, com bolsas a estudantes estrangeiros, principalmente oriundos de países geograficamente próximos ao Brasil. Com isso, poderia aumentar a popularidade da Universidade entre as instituições de ensino superior e de pesquisa da América Latina e incentivar a participação de alunos latino-americanos na pós-graduação do instituto.

A proposta de Garratt foi aprovada. Os programas de Estágio de Verão do IFSC recebiam uma média de 100 inscritos, dos quais 12 eram selecionados para estagiarem na unidade durante dois meses. Mas o projeto durou apenas três anos, porque “durante um período, a USP foi mal gerenciada. Então, hoje, por exemplo, não há mais todo aquele dinheiro”, diz Garratt.

Disposto a dar continuidade ao programa do IFSC, o professor procurou outras fontes de investimento. Lembrou-se de Harren Jhoti, um amigo que, em 1999, juntamente a colegas ingleses, fundou uma empresa de biotecnologia que se dedicava ao desenvolvimento de fármacos e três anos atrás foi comprada por uma companhia japonesa. Em 2015, quando Jhoti veio ao Brasil para ministrar uma palestra, Garratt perguntou-lhe se estaria interessado em investir algum dinheiro no programa, e o amigo disse prontamente que sim porque queria, principalmente, estimular a participação de mulheres na ciência.

Curiosamente, algum tempo depois, um norte-americano chamado Daniel Salazar, que atuava na companhia japonesa, mudou-se para o Brasil para trabalhar em uma empresa da qual o professor Glaucius Oliva, do IFSC, é consultor. Durante uma confraternização, Oliva comentou a respeito do programa com Salazar, que por sua vez sentiu o desejo de colaborar com a iniciativa, doando um valor em dinheiro.

A quantia de ambas as doações era suficiente para custear gastos com hospedagens e transportes aéreos de alguns bolsistas. Pensando nisso, Garratt decidiu organizar uma nova edição do programa e, em 2016, anunciou a abertura das inscrições do Estágio de Verão do IFSC/USP 2017, que recebeu 40 inscrições, sendo que sete candidatos foram selecionados e já estão realizando seus estágios na unidade.

Quem são os estagiários

Eduardo Luciano Gutierrez, aluno de licenciatura em Química da Universidade Nacional de São Luis (Argentina), foi um dos inscritos que receberam bolsa para esta edição do programa. No Grupo de Cristalografia do IFSC, o professor Javier Ellena orienta o estudante de 27 anos na análise de formas cristalinas de materiais farmacêuticos, com o objetivo de melhorar as propriedades de alguns fármacos.

Eduardo Gutierrez, da Universidade Nacional de São Luis (Argentina) – Foto: Divulgação/Assessoria IFSC

 

Anai Dias Morales, de 23 anos, é aluna de graduação em Engenharia de Biotecnologia Molecular da Universidade do Chile. Seu orientador de iniciação científica foi quem a avisou sobre o estágio. Atualmente, ela está no laboratório do professor Igor Polikarpov, com quem tenta descobrir celulases com utilidade industrial. Essas enzimas, retiradas de plantas, são utilizadas no processo de fabricação de materiais como papel e plástico.

 

Anai Morales, da Universidade do Chile – Foto: Divulgação/Assessoria IFSC

 

Aos 23 anos, Anthony Jhoao Fasabi Flores estuda Biologia na Universidade Nacional da Amazônia Peruana. Em duas ocasiões, tentou ingressar no programa de estágio do LNLS, mas não foi selecionado. Ele conheceu Garratt há alguns anos em um encontro científico, e, quando solicitou ao docente uma carta de recomendação para que pudesse se inscrever novamente no citado programa, soube que haveria uma iniciativa semelhante no IFSC. Em 2016, Anthony Flores se inscreveu no estágio, foi aceito e recebe orientação de Garratt para investigar as cistatinas, proteínas que inibem ações de enzimas que desempenham papéis importantes no desenvolvimento de câncer.

Pablo Antonio Cea Medina também tem 23 anos e é mestrando em Engenharia de Biotecnologia Molecular na Universidade do Chile. Sob a orientação do professor Glaucius Oliva, estuda o ciclo de replicação do vírus zika. Antes de iniciar o estágio, já conhecia o IFSC por colegas pós-doutorandos que estudaram no instituto. “Agora, estou finalizando o mestrado, mas quero fazer um doutorado. Ainda não sei onde irei desenvolvê-lo, mas o IFSC é uma das minhas opções.”

Diana Carolina Castaño é graduanda do curso de Biologia da Universidade de Antioquia, na Colômbia. Por meio do programa do IFSC, a jovem de 24 anos estuda mecanismos de defesa de microrganismos que causam infecções hospitalares. “Atualmente, há uma preocupação mundial acerca dessas bactérias porque elas estão se tornando cada vez mais resistentes aos antibióticos que deveriam combatê-las”, explica a jovem, que estagia no laboratório da professora Ilana Lopes e demonstra interesse em desenvolver a pós-graduação no Instituto de Física de São Carlos.

Com 26 anos, Catherine Mirley Ortega Gomez, da Universidade de Cauca, na Colômbia, também realiza estágio no instituto. “Me inscrevi no programa para complementar meu trabalho de graduação que envolve estudos com parasitas, e para aprender mais sobre biologia estrutural”, comenta a aluna que, no laboratório do professor Otavio Thiemann, trabalha com clonagem e mutação de genes relacionados ao Trypanossoma brucei.

O parasita causa a doença do sono, uma patologia que pode provocar mudanças de humor ou de comportamento, confusão mental, febre, distúrbios sensoriais e de coordenação, convulsões, bem como alterações no ciclo do sono. Nos animais, o parasita também pode causar uma doença chamada nagana, que ocasiona febre, anemia e inchaço. Uma vez infectados, os animais podem hospedar protozoários capazes de contaminar os seres humanos.

 

Catherine Gomez, da Universidade de Cauca (Colômbia) – Foto: Divulgação/Assessoria IFSC

 

Embora a maioria desses alunos esteja na graduação, todos certamente darão continuidade à carreira acadêmica. E, se depender deles, esta edição do programa já cumpriu algumas de suas principais metas, haja vista que Eduardo, Anai, Anthony, Pablo, Diana e Catherine pretendem desenvolver a pós-graduação na unidade, ou estimular parcerias entre suas instituições de origem e o IFSC.

Thierry Santos/Rui Sintra, da Assessoria de Comunicação do IFSC

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