De laboratório a superlaboratório: ‘Fizemos cada parafuso’, diz diretor

Publicado em 20/05/2016
G1 Campinas e Região em 18/05/2016

LINK: http://g1.globo.com/sp/campinas-regiao/noticia/2016/05/de-laboratorio-superlaboratorio-fizemos-cada-parafuso-diz-diretor.html

“No início da década de 80, a comunidade física no Brasil começou a discutir a necessidade de fazer um projeto científico que tivesse sofisticação, […] que desse um salto tecnológico e de conhecimento. Essa discussão evoluiu para a ideia de que um síncrotron resolveria”, afirma o diretor Antônio José Roque da Silva, sobre o nascimento do Laboratório Nacional de Luz Síncrotron (LNLS), em Campinas (SP).

Na segunda reportagem especial sobre o projeto Sirius, o G1 vai contar como nasceu o LNLS, que abriga a primeira e única fonte de luz síncrotron aberta ao uso da comunidade acadêmica e industrial da América Latina. O laboratório, que fica no campus do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (Cnpem), onde está instalado o Polo II de Alta Tecnologia, pode ser considerado uma espécie de “embrião” do superlaboratório em construção.

Na primeira reportagem, o especial abordou os usos da luz síncrotron.

O laboratório LNLS foi inaugurado em 1997 após dez anos de construção. Segundo Silva, ele foi todo desenhado e projetado no Brasil. “A fonte que a gente tem operando, que a gente chama de UVX, abriu para usuários em 1997. Ela é 100% feita no Brasil e 85% fabricada dentro do laboratório”, conta.

O diretor explica que o fato de o Brasil ter concebido e construído o laboratório gerou um conhecimento tecnológico excepcional. “Projetamos cada parafuso desse equipamento. […]  A gente tem uma taxa de operação, de confiabilidade enorme, porque a gente rapidamente sabe consertar”, explica

Mas, para o LNLS chegar a esse ponto não foi fácil e barato, foi preciso investir muito em treinamento e capacitação de pessoal. “Você teve que treinar todo esse pessoal ao longo desses 10 anos […] houve um misto de estratégia e questões macroeconômicas que levaram você a optar pela produção. O que num certo momento é dificuldade, acaba se transformando num diferencial”, destaca Silva.

Em 1997, ano da abertura, foram 100 projetos pesquisados no laboratório. Já, em 2013, por exemplo, foram 400 estudos. A seleção para uso do síncrotron de Campinas se dá por meio de um método competitivo de submissão de propostas.

A luz síncrotron existente no laboratório de Campinas é a única da Ámerica Latina. Ela é chamada pelos pesquisadores de UVX, sigla que representa do ultravioleta até raios X e permite analisar apenas a camada superficial de materiais duros e densos por ser de segunda geração.

“É uma questão ligada a tecnologia dela. Ela sendo de baixa energia dos elétrons […]. Ela não tem muitos espaços para colocar linhas de luz [estações experimentais]. Ela chegou praticamente ao seu limite”, revela o diretor.

A fonte existente na América Latina é antiga e tem brilho mais baixo que as mais modernas utilizadas no mundo atualmente, que são de terceira geração. Já a luz síncrotron do Sirius será de quarta geração e permitirá estudar os materiais de forma mais profunda.

Ao longo dos anos, o LNLS foi crescendo e as pesquisas científicas desenvolvidas no laboratório foram se aperfeiçoando. Hoje são 18 linhas de luz, que são as estações de trabalho onde pesquisadores desenvolvem seus estudos. Na inauguração eram sete.

“Fomos aumentando as linhas para aumentar a capacidade de fornecimento da ferramenta para a comunidade, estruturando uma série de programas internos, melhorando a capacidade do equipamento”, destaca Silva.

A comunidade científica que passou a usar síncrotron começou a sofisticar os seus problemas. Além disso, a evolução dos equipamentos pelo mundo e o avanço das técnicas fizeram com que, por volta do ano 2000, houvesse uma demanda por um feixe de luz mais brilhante.

Ele teve um papel fundamental, talvez seja o projeto mais bem-sucedido da história da ciência brasileira do ponto de vista de concepção, construção a partir do zero, mas ele atingiu suas limitações. É aí que nasce o Sirius”
Antônio José Roque da Silva, diretor

“Ele teve um papel fundamental, talvez seja o projeto mais bem-sucedido da história da ciência brasileira do ponto de vista de concepção, construção a partir do zero, mas ele atingiu suas limitações. É aí que nasce o Sirius”, finaliza.

Na terceira reportagem da série especial doG1, você vai conhecer pesquisadores e pesquisas de alto impacto produzidas pelo LNLS e que abriram caminho para criar um projeto como o Sirius, que será um superlaboratório.

Correção infográfico lnls (Foto: Henrique Murayama/ Arte G1)

 

Repercussão: Jornal de Floripa

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