Cortes no orçamento do Ministério de Ciência e Tecnologia frustram cientistas

Publicado em 17/02/2012

Veja, em 16/02/2012

Especialistas procurados por VEJA afirmam que cortes podem fazer o Brasil perder oportunidades históricas de se estabelecer como potência científica

Marco Túlio Pires

A notícia de que o Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação vai perder 20% do orçamento em 2012 foi recebida com frustração pela comunidade científica. Para os cientistas ouvidos pelo site de VEJA, o corte passa uma mensagem que contradiz a política anunciada durante a posse do novo ministro de ciência, tecnologia e inovação, Marco Antonio Raupp, em janeiro.

Na ocasião, Dilma afirmou que educação e ciência eram pilares do governo e que haveria um “casamento” entre as pastas. O corte de 1,48 bilhão de reais nas despesas de Ciência e Tecnologia, anunciado nesta quarta-feira pelo governo, reduziu o montante gasto em ciência, tecnologia e inovação no país para 5,2 bilhões. Em 2011, já houve um corte de 23%, quando o orçamento perdeu um bilhão de reais dos 7,4 bilhões previstos. Contudo, o corte de 55 bilhões no orçamento de 2012 não afetou o Ministério da Educação.

A medida coloca um ponto de interrogação na conclusão de grandes projetos, como a entrada do Brasil no ESO (Observatório Europeu do Sul), a participação do país no CERN (Centro Europeu de Pesquisas Nucleares) e a construção do novo anel síncrotron, um tipo de acelerador de partículas, em Campinas. Além disso, os cientistas estão preocupados com o dinheiro destinado para o financiamento de pesquisa.

De acordo com a assessoria do ministério, a pasta vai reavaliar a situação orçamentária e se pronunciará nos próximos dias. Nesta quinta-feira, Raupp passou o dia visitando o Centro Experimental de Aramar, em Iperó, no interior de São Paulo. O centro é responsável pela pesquisa nuclear da Marinha.

Especialistas analisam como os cortes poderão afetar a ciência, tecnologia e inovação do país

Helena Nader

Presidente da SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência)

“Realizar cortes em ciência, tecnologia e inovação é interromper o futuro do país. O efeito só será sentido daqui muito tempo. Sabemos que devemos economizar e que a situação financeira do mundo não é boa, mas os cortes nunca devem ocorrer em educação e ciência. Qual jovem, ao saber dessa notícia, vai acreditar que queremos ser uma nação desenvolvida? Essa situação cria uma insegurança nos novos talentos e deixa claro que não temos um projeto de estado. Ou o Brasil muda de fato ou continuará sendo uma nação extrativista, que exporta petróleo para a China e depois pede para que eles venham montar iPads no Brasil.”

Hernan Chaimovich

Vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências

“O Brasil despertou uma expectativa gigantesca no mundo, tal que pesquisadores de todos os lugares, cedendo ao nosso apelo, estão vindo para cá. O mesmo ocorre com muitos brasileiros que estavam no exterior e vêm sendo repatriados. O corte no financiamento à ciência pode fazer com que esse movimento de ganhar cérebros, em vez de exportar, perca intensidade. Isso representaria desperdiçar uma oportunidade histórica.”

Rogério Cerqueira Leite

Ex-diretor geral e fundador do Centro Nacional de Pesquisa em Energias e Materiais

“Vejo duas consequências. A primeira, psicológica. Todos estavam muito contentes com a ideia de um aumento no orçamento. O pesquisador precisa de reconhecimento e o aumento seria compreendido como se o governo estivesse percebendo a importância da ciência, tecnologia e inovação. Novamente, o cientista se sentirá rejeitado. A segunda consequência tem a ver com os projetos que serão cortados. Uma parte do dinheiro está comprometida em salários e, como não podem mexer em pessoal, o ministério terá que levar uma série de fatores em consideração, como a quantidade de cientistas beneficiados por cada projeto. O novo anel síncrotron, por exemplo, beneficiaria mais de 5.000 cientistas. Creio que o governo leve isso em consideração.”

Eduardo Janot Pacheco

Presidente da Sociedade Astronômica Brasileira

“O corte no orçamento do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação é uma pequena tragédia para a ciência brasileira. Temos esperança de que o contingenciamento não dure o ano todo. Se os cortes ocorrerem no CNPq, por exemplo, os resultados serão catastróficos: eles incidirão sobre o número de bolsas disponíveis e os recursos de bancada, que sustentam boa parte da rotina dos pesquisadores brasileiros. Isso já aconteceu em 2011. Cortar verbas das Unidades de Pesquisa do MCTI é igualmente grave, pois elas já têm, via de regra, orçamentos enxutos, e os cortes podem acarretar dificuldades de funcionamento. Se os cortes forem nas verbas da FINEP, a situação é relativamente menos grave, pois o órgão só concede recursos de grande monta, para grupos e projetos igualmente grandes, mas, no geral, incidindo sobre um número menor de cientistas.”

Guilherme Marco de Lima

Vice-presidente da Anpei (Associação Nacional de Pesquisa e Desenvolvimento das Empresas Inovadoras)

“Se o governo quer que o Brasil tenha vocação para a inovação, ela precisa ser definitivamente uma política de estado e não de governo. Uma política que não dependa das circunstâncias econômicas. Além disso, nossa balança comercial de 2011 reflete a mesma da década de 1970: exportamos 36% de commodities. O caminho para sair desse cenário é através da inovação, com produtos inovadores e que agregam valor ao mercado brasileiro. O corte no orçamento do Ministério de Ciência, Tecnologia e Inovação vai contra essa ideia.”

Mayana Zatz

Coordenadora do Centro de Estudos do Genoma Humano, da USP

“É uma ducha de água fria. Nunca poderemos competir com países desenvolvidos sem investimentos em ciência e tecnologia. Se já tínhamos menos recursos que esses países, a situação ficou ainda pior. Por outro lado, se mudarmos as leis de importação para os pesquisadores poderíamos, além de aumentar a velocidade da pesquisa, fazer muito mais com os mesmos recursos.”

Claudia Lage

Coordenadora do Laboratório de Radiobiologia Molecular da UFRJ

“Vimos o MCTI amargar um ‘deserto financeiro’ em 2011, não somente pelo corte já imposto para 2011, mas pela falta da aplicação da cota orçamentária a ele destinado nas áreas indicadas como estratégicas e até mesmo de segurança nacional. Vários programas passaram o último ano em compasso de espera. O corte acumulado para 2012 é de 30% em relação ao orçamento de 2010. Fica difícil prever o que vai acontecer, levando em conta que são dois os fatores em jogo: o corte orçamentário e uma mudança de ministro ao mesmo tempo. Raupp anunciou que efetivamente não mudará a política já implementada para os investimentos em ciência e tecnologia, todavia, interpreto essa assertiva como ‘a manutenção da indefinição.’ Teremos um novo ano em espera, com o ministro Raupp tomando pé no terreno antes de iniciar seu pleno exercício na pasta.”

Ernesto Kemp

Doutor em Física pela Universidade de Campinas, especialista em neutrinos

“Lembrando uma estatística durante a década de 90, realizada na Europa: para cada dólar investido no CERN foram gerados entre 4 e 6 dólares na economia europeia. O governo sul-coreano saiu de um cenário catastrófico na década de 70, quando tinha índices de desenvolvimento africanos, por meio de investimentos maciços em educação e ciência. Hoje estamos comprando carros, celulares, parafernália eletrônica, trem bala, e outras coisas, da Coreia do Sul. Investimento em ciência básica tem retornos inquestionáveis para a economia.”

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