Ciências do Brasil e China começam a falar a mesma língua

Publicado em 23/04/2014
Estadão Blogs, em 19/04/2014

O cientista Zhongfan Liu apresenta suas pesquisas na Universidade de Pequim. Crédito: Herton Escobar/Estadão

“Tenho muito pouco contato com brasileiros, mas deu para ver que são bons cientistas. Acho que teremos bastante espaço para colaborações.”

A avaliação, do pesquisador chinês Shu Tao, serve como uma boa síntese do que se passou nos três dias de encontro entre cientistas brasileiros e chineses na Fapesp Week Beijing, evento organizado pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, em colaboração com a Universidade de Pequim (PKU), com o intuito de fomentar parcerias entre os dois países na área de ciência e tecnologia.

O simpósio terminou na sexta-feira (18) sem nenhum documento assinado, mas com um processo de negociação aberto, que deverá levar a um acordo formal de colaboração entre as duas instituições.

“Exploramos a possibilidade de um acordo com a PKU e acho que vai sair”, adiantou o presidente da Fapesp e ex-ministro das Relações Exteriores, Celso Lafer, ressaltando que a iniciativa faz parte de um esforço estratégico de internacionalização da ciência no Estado de São Paulo. “Precisamos desse tipo de evento para iniciar as conversas. Como em qualquer nova relação, há o tempo de semear e o tempo de colher; estamos na fase de semear”, completou.

A PKU é a maior universidade da China e aparece entre as melhores do mundo em alguns rankings internacionais.

Caso se materialize, o acordo será o primeiro desse tipo estabelecido pela Fapesp no eixo “sul-sul”, e um dos primeiros do Brasil com a China voltado especificamente para a área de pesquisa. ”Estamos fazendo algo histórico aqui”, disse o bioquímico Hernan Chaimovich, professor da Universidade de São Paulo (USP) e vice-presidente da Academia Brasileira de Ciências (ABC). “É a primeira vez que cientistas brasileiros de várias disciplinas se organizam, sem a participação de nenhum governo, para vir à China e dizer: queremos trabalhar com vocês.”

Além do fato de serem países emergentes, com relações comerciais de grande importância para suas respectivas economias (a China é o maior comprador de soja e minério de ferro do Brasil), os dois países têm pouco em comum, e a interação entre suas comunidades científicas é bastante limitada. As colaborações que existem limitam-se a parcerias individuais entre pesquisadores e alguns poucos acordos isolados entre governos, como é o caso do programa de satélites CBERS e o Centro Brasil-China de Pesquisa e Inovação em Nanotecnologia.

A maioria dos cientistas brasileiros que participou do simpósio desconhecia o trabalho dos seus correspondentes chineses, e vice-versa. A variedade de temas abordados pelos palestrantes dos dois países foi enorme, desde células-tronco para o tratamento de problemas cardíacos e diabetes até modelagem matemática de mudanças climáticas, conservação de anfíbios, produção de biocombustíveis e nanotubos de carbono.

Sintonia. Um dos que saiu mais satisfeito do encontro, e com uma parceria já engatilhada, foi o bioquímico Marcos Buckeridge, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. Depois de apresentar suas pesquisas sobre a estrutura da parede celular de plantas – com o intuito de favorecer a produção de bioetanol – ele assistiu à palestra do chinês Hongwei Guo, da PKU, sobre seu estudo do hormônio vegetal etileno, que está envolvido nos processos naturais de degeneração das plantas.

A sintonia foi instantânea. Buckeridge foi visitar o laboratório de Guo, que prometeu enviar uma aluna dele ao Brasil ainda neste ano para unir as duas linhas de pesquisa. “Independentemente do que acontecer entre a Fapesp e a PKU, vamos desenvolver alguma coisa juntos”, garantiu Buckeridge.

O neurocientista Fernando Cendes, chefe do Departamento de Neurologia da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), também fez contatos importantes para suas pesquisas sobre epilepsia; enquanto que o médico e geneticista José Eduardo Krieger, do Instituto do Coração e Faculdade de Medicina da USP, estreitou laços com a pesquisadora Ruiping Xiao, do Instituto de Medicina Molecular da PKU, uma das cientistas de maior renome internacional no estudo das relações entre síndrome metabólica, obesidade e diabetes.

Uma das palestras que mais impressionaram o diretor científico da Fapesp, o físico Carlos Henrique de Brito Cruz, foi justamente a que abriu o evento, proferida pelo diretor do Centro de Nanociências e Nanotecnologias da PKU, Zhongfan Liu, sobre técnicas para produção de folhas de carbono puro (grafeno). “Temos bons grupos trabalhando com isso em São Paulo; certamente é uma área onde poderemos colaborar”, disse.

Ciência “flex-topic”. Zhongfan, considerado um dos cientistas de maior destaque da China atualmente, também saiu do evento com uma boa impressão da ciência brasileira – que, até então, ele desconhecia.

Ele disse ter se surpreendido – positivamente – com o perfil mais básico e elementar das pesquisas brasileiras que foram apresentadas. “Os cientistas chineses estão sempre correndo atrás dos temas mais quentes ou populares (os “hot topics”) do momento. No Brasil parece que o pesquisador estuda aquilo que o interessa mais. Achei isso muito interessante”, disse.

Essa “flexibilidade” é, de fato, uma das vantagens de fazer pesquisa no Brasil, segundo o químico Fernando Galembeck, professor aposentado da Unicamp e diretor do Laboratório Nacional de Nanotecnologia, em Campinas, que apresentou os últimos resultados de suas pesquisas sobre mecanismos de formação de descargas eletroestáticas. “Quando comecei a estudar isso, era a coisa mais gelada do mundo; só que, para minha sorte, começou a esquentar a partir de 2003”, conta Galembeck, que por sua vez é um dos cientistas mais respeitados do Brasil. “Eu faço pesquisa sobre coisas que eu quero entender. Porém, nunca deixo de pensar: será que esse conhecimento poderia ser aplicado de alguma forma?”

Para Brito Cruz – que sempre faz questão de dizer em suas palestras que a Fapesp financia todos os tipos de pesquisa, incluindo as mais básicas, com o único objetivo de “tornar a humanidade mais sábia” – a observação de Zhongfan pode estar relacionada à cultura extremamente competitiva da academia chinesa, em que pesquisadores estão sob constante pressão para publicar trabalhos de grande impacto em revistas internacionais – o que acaba induzindo a uma preferência pelos “hot topics”.

O simpósio em Pequim foi a 12a Fapesp Week realizada pela fundação desde 2011. As anteriores foram em cidades dos Estados Unidos, Canadá, Espanha, Japão e Inglaterra. Todas elas, segundo Lafer, com resultados concretos. “A internacionalização é uma prioridade estratégica para a nossa ciência e estamos muito empenhados em cultivar essas parcerias”, disse.

*O repórter viajou a convite da Fapesp.

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