Campinas vira polo de pesquisa em energia limpa

Publicado em 21/08/2014

Correio Popular, em 18/08/2014.

A região de Campinas se firmou no cenário nacional como um polo de desenvolvimento de tecnologias e produtos nas áreas de energia e combustíveis. Mais de R$ 300 milhões foram aplicados nos últimos seis anos em centros de pesquisa e em linhas de produção. Instituições e empresas como o Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), Instituto Agronômico de Campinas (IAC), Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), Amyris, CPFL Energia e Braskem apostam em estudos em áreas como biomassa de cana-de-açúcar, biodiesel, energia solar, carro elétrico e extração de petróleo do pré-sal.

Recentemente, a chinesa BYD anunciou que irá construir em Campinas uma fábrica de montagem de ônibus elétricos, cujos investimentos vão somar R$ 250 milhões e que vai gerar 450 empregos diretos. Na lista de projetos que foram implantados na região nos últimos anos estão o Laboratório de Energia Fotovoltaica “Richard Louis Anderson” do Centro de Tecnologia da Informação (CTI) Renato Archer; Laboratório de Produtos Químicos Renováveis da Braskem; Laboratório de Caracterização de Biomassa na Faculdade de Engenharia Química (FEQ) da Unicamp; Usina Solar de Tanquinho da CPFL e o Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), que faz parte do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM).

Usina Energia Solar Tanquinho CPFL
Usina de energia solar da CPFL no Tanquinho, em Campinas (Crédito: Edu Fontes / AAN).

O secretário de Desenvolvimento Econômico, Social e de Turismo, Samuel Rossilho, afirma que a cidade tem um perfil que favorece a instalação de laboratórios e empresas que atuam com tecnologia. “O município tem áreas específicas para as empresas de base tecnológica e também há universidades que dão suporte para o desenvolvimento das atividades. A Prefeitura atua como uma facilitadora para a instalação dos negócios. Nós apostamos no desenvolvimento sustentável do município”, diz.

Ele salienta que a própria Prefeitura busca por novas tecnologias limpas para reduzir o consumo de energia e de combustíveis. “O governo também dá exemplo. Temos projetos para o uso de energia fotovoltaica no Palácio dos Jequitibás. A mesma tecnologia será empregada no Hospital Mário Gatti. Também vamos substituir o sistema de ar-condicionado por equipamentos mais sustentáveis. Mais uma medida que iremos adotar é o uso de veículos elétricos”, comenta. Rossilho lembra que há um ônibus elétrico em teste na cidade. “O projeto poderá se estender também para os táxis”, aponta.

Polo
A Unicamp é um dos celeiros de produção de pesquisa nas áreas de energia e combustíveis renováveis. A universidade também tem uma forte atuação nos estudos na área de petróleo, colaborando com o esforço para ampliar a produção do pré-sal. O professor do Laboratório de Hidrogênio (IFGW) do Núcleo Interdisciplinar de Planejamento Energético (Nipe) da Unicamp, Ennio Peres da Silva, afirma que cresce a participação das fontes renováveis de energia no sistema elétrico brasileiro.

Ele diz que diversos institutos da universidade estudam desde o hidrogênio até a biomassa de cana-de-açúcar para aplicação na geração de energia e também com combustível. “Há várias linhas de pesquisa, desde básica até tecnologias com viabilidade comercial”, comenta. O pesquisador afirma que o Brasil precisa investir para ampliar o uso das fontes renováveis na matriz energética nacional e que nem todas as pesquisas acabam sendo viáveis comercialmente.

Vale do Silício
O assessor técnico da presidência do Centro de Tecnologia Canavieira (CTC), Jaime Finguerut, afirma que a região ampliada de Campinas é considerada um “Vale do Silício da Cana-de-Açúcar” na geração de tecnologia para o setor sucroalcooleiro. “O CTC nasceu na década de 1940. O Instituto Agronômico de Campinas (IAC) desenvolveu inúmeras variedades de cana e a Unicamp tem laboratórios e centros de pesquisa focados em biomassa”, comenta. Ele diz que por ano o CTC investe R$ 150 milhões.

O especialista diz que o centro trabalha com três pilares: melhoramento genético, tecnologia de processamento da cana-de-açúcar e novos negócios. “Os estudos avançados proporcionaram o crescimento da indústria sucroalcooleiro desde o campo até a produção”, pontua. Ele ressalta que o potencial de expansão do setor é grande, mas ele necessita de um suporte tecnológico para garantir maior produtividade em uma área menor de campo.

Finguerut diz que hoje o centro é uma empresa privada que tem como principais sócios usinas e produtores rurais. “O BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social) também será um acionista do centro tecnológico e vai elevar os aportes em pesquisa e desenvolvimento de tecnologias”, afirma. Ele destaca que o setor sucroalcooleiro investe entre 0,3% a 0,5% do faturamento em pesquisa e desenvolvimento (P&D). “O volume é equivalente a R$ 150 milhões por ano. O CTC também investe o mesmo patamar em pesquisas e novas tecnologias”, aponta. O assessor destaca que os institutos localizados na região estão empenhados em várias linhas de estudos desde o melhoramento genético da cana-de-açúcar para que a planta se adapte a diferentes solos e climas até a querosene de aviação oriunda do etanol. “A cana é a planta com o maior potencial de inúmeros usos. Além de combustível, há aplicações como o plástico verde”, diz.

 

Cana é maior protagonista em estudos

A cana-de-açúcar é matéria-prima de estudo de vários laboratórios na região de Campinas. O Instituto Agronômico de Campinas (IAC), desde 1997 até 2014, desenvolveu 22 variedades de cana. Desse total, 21 delas para o setor sucroalcooleiro e um para forrageira. Conforme dados do IAC, 18 variedades foram adotadas comercialmente.

Outro importante centro de pesquisas é o Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE), que faz parte do complexo de laboratórios do Centro Nacional de Pesquisa em Energia e Materiais (CNPEM), em Campinas. O centro tem como uma das características ser utilizado por usuários brasileiros e do Exterior. O laboratório tem uma planta piloto para desenvolvimento de processos (PPDP). O centro fechou o ano de 2013 com 200 profissionais e firmou 12 acordos para projetos de cooperação com indústrias do setor de energia e materiais. Foram publicadas nove patentes.

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