Cada Macaco no seu galho

Publicado em 26/11/2014

Jornal da Ciência, em 24/11/2014

Neste quarto artigo Cylon G. da Silva* alerta para o risco crescente da perda de especialização institucional de grandes laboratórios científicos no Brasil

A diversidade da Natureza decorre da progressiva especialização das espécies, como Darwin e Wallace genialmente intuíram naquela que é, com certeza, a maior e mais profunda descoberta intelectual de espécie humana. A ausência de “inteligência’ neste processo que resulta de algumas poucas e simples regras, combinando, na sintética expressão de Jacques Monod “acaso e necessidade”, é o que o torna tão espetacular e digno da mais reverente admiração pela única inteligência nele envolvida: a humana. A especialização é um fator de sucesso de uma espécie. Ela pode também ser a causa de sua extinção quando se torna excessiva e as condições ambientais se alteram rapidamente. Mas, isto é bem conhecido e não precisamos nos deter mais sobre o assunto.

É sempre perigoso extrapolar de um domínio do conhecimento para outro, mas ninguém pode negar o valor heurístico da tentativa de “esticar” uma ideia, eventualmente falsificável, sobretudo quando tão profunda, para além de seus limites originais. Não há nada de original no que segue, mas são ponderações que considero relevantes para os temas que tenho tratado nesta série de artigos sobre o LNLS.

As instituições humanas, ao contrário das espécies, são, na maior parte dos casos, fruto de um projeto que se quer inteligente. Ao menos nos seus primeiros passos. Depois, em um sentido distinto, mas paralelo, ao do empregado por Monod, o acaso e a necessidade desempenham seu papel, como em tudo mais na nossa vida. Ninguém começa um empreendimento de boa fé com a intenção de que ele fracasse. Ao longo do tempo, inúmeras “tecnologias” de gestão foram desenvolvidas, como por exemplo as metodologias de Planejamento Estratégico, que tentam definir regras para projetar e conduzir com sucesso uma instituição humana em meio às turbulências do acaso e aos imperativos da necessidade.

As instituições científicas não fogem a tais regras gerais. Mas, além daquelas regras da engenharia (planeje, execute, avalie, reprojete), há algumas que se parecem mais às regras da Vida. As instituições que se especializam ao longo do tempo, que encontram seu “nicho ecológico” e que para ele otimizam seu desempenho, são sempre as melhor sucedidas. No Brasil, temos vários exemplos, dos quais um excelente é o Instituto de Matemática

Pura e Aplicada do MCTI. Ao longo de décadas de existência, o IMPA perseguiu implacavelmente o objetivo da excelência em Matemática. Não diria que a Medalha Fields recentemente atribuída a Artur Ávila, ex-aluno e hoje pesquisador do IMPA, seja o coroamento deste processo, pela simples razão que acredito que ela marca apenas um magnífico sucesso, ao qual outros se seguirão. O IMPA, como instituição, sabe o que quer. É um exemplo claro do valor da especialização de uma instituição científica. Isto, obviamente, não garante seu perene sucesso. As condições ambientais podem mudar repentinamente, como na Alemanha nazista em 1933, que destruiu grandes instituições científicas (depois reconstruídas, mas nunca mais o país teve a preeminência que foi sua durante décadas). O risco sempre existe, mas não tira o valor da estratégia corajosa e focada do IMPA.

O LNLS também foi concebido inicialmente como uma organização altamente especializada: um Laboratório Nacional destinado a fornecer luz síncrotron, o apoio técnico-científico e a instrumentação necessária para a comunidade científica, dentro de condições técnicas competitivas internacionalmente. A partir daí, como Laboratório Nacional, naturalmente, a qualidade da ciência produzida dependeria muito de seus usuários.

O acaso e a necessidade levaram à implantação dos laboratórios de microscopia eletrônica e de biologia molecular. Um, para dar aos usuários ferramentas de análise de materiais complementares à luz síncrotron e o outro para preparar a comunidade das ciências da vida para usarem a fonte de luz síncrotron. Mas, procuramos não nos desviar dos preceitos fundamentais de um Laboratório Nacional, já discutidos anteriormente nesta série de artigos.

A criação do Laboratório Nacional de Ciência e Tecnologia do Bioetanol (CTBE) dentro – institucional e fisicamente – da ABTLuS, a Organização Social que geria o LNLS, foi uma dessas contingências políticas resultante da resistência do Governo da época em criar novas Organizações Sociais (aparentemente hoje dissipada, mas naquele momento, paralisante). Chegamos a oferecer ao Ministério alternativas de localização e organização que pareciam fazer mais sentido do que instalar o CTBE dentro do campus da ABTLuS, mas essas foram recusadas. A posterior transformação da ABTLuS em CNPEM veio para fazer uma virtude de uma necessidade, a qual às vezes é mais forte do que o acaso. Mas, isto não significa que a estrutura toda não deva ser repensada e, se necessário for, reconstruída em outras bases.

Hoje em dia, com a crescente demanda de que as organizações científicas justifiquem sua existência dedicando-se mais e mais à inovação (ah! as modas, as modas!), há um risco crescente de perda de especialização institucional, que é um elemento essencial para o sucesso de uma instituição. A inovação é importante, mas sem organizações especializadas, não há sucesso. Uma instituição científica que quer ser tudo para todo mundo está fadada à mediocridade, isto é, ao fracasso.

O sucesso da inovação no LNLS se deveu à estratégia de especialização escolhida: projetar e construir os equipamentos tanto quanto possível no Brasil. As circunstâncias do momento nos obrigaram a fazer muito “dentro de casa”, mas o que podia ser repassado para a indústria nacional, o foi. Com isto, o projeto ganhou um diferencial competitivo importantíssimo para sua Ciência: a capacidade de projetar e construir instrumentos científicos inovadores. O Sirius segue, em escala ampliada, o mesmo caminho. Isto é ótimo.

O avanço de vários ramos da ciência está indissoluvelmente ligado ao desenvolvimento da instrumentação científica. Ninguém resumiu com mais humor do que Millôr Fernandes o impacto de novos instrumentos. “Todos sabem que a ciência tem seus lados negativos: a invenção do microscópio provocou o aparecimento de milhões de micróbios.”(Millôr Definitivo, L&PM Pocket 2003, p. 94). Novos instrumentos científicos descortinam mundos novos – fazem surgir, cada um a seu modo, “milhões de micróbios”. Não se trata apenas de descobrir de repente que existem organismos desconhecidos, alguns potencialmente letais, com os quais convivemos desde o início da vida, mas de descobrir toda uma nova e vasta fronteira do conhecimento graças à inovadora combinação de algumas lentes.

Instrumentos estendem nossos sentidos no espaço e no tempo, expandem nossos conceitos das formas da matéria e energia, nos permitem acessar representações progressivamente mais abstratas do Universo em que vivemos, como espaços de momenta e comprimentos de onda, espaços de energias e frequências, números quânticos e tantos outros. Assim fazendo, a invenção de novos instrumentos cria fronteiras do conhecimento e renova constantemente a atividade científica. Faz surgir “milhões de micróbios”.

Quando um pesquisador escolhe de um catálogo e compra um instrumento científico avançado, não esqueçamos que, provavelmente, este instrumento foi desenvolvido para resolver um problema científico que ninguém tinha conseguido resolver antes. Uma vez inventado, outros usos poderão ser descobertos, mas, em Ciência, como na Maratona, conta quem chega primeiro. Muitas vezes, o inventor do instrumento tem sua criatividade recompensada com um Prêmio Nobel. Era isto que imaginávamos que um dia poderíamos fazer no LNLS – não simplesmente resolver problemas com equipamentos de prateleira, por mais modernos que fossem, mas criar instrumentos para resolver problemas impossíveis de resolver sem um novo instrumento.

Os investimentos no CNPEM só se justificam se ele for capaz de criar ciência de fronteira. A tecnologia e a inovação no CNPEM devem ser decorrentes de sua especialização como Laboratório Nacional/Centro de Ciência que almeja ser competitivo globalmente. Esta é a única possibilidade de, no longo prazo, ele reproduzir a estratégia bem sucedida do IMPA e ganhar reconhecimento internacional para a Ciência nele feita. Reproduzir dentro dele Departamentos universitários, Institutos tecnológicos ou Centros de inovação e paróquias “científicas” é jogar dinheiro fora. Para fazer pesquisa ou inovação no CNPEM para resolver problemas que podem e devem ser resolvidos em outras instituições, sem querer em nada diminuí-las – apenas, cada macaco em seu galho! – é ludibriar o contribuinte.

Um Laboratório Nacional tem de estar na fronteira do conhecimento e tem de contribuir para criar novas fronteiras. Para isto, ele precisa de uma infraestrutura de projeto e construção de equipamentos de primeira qualidade, da capacidade de atrair e reter (ainda que temporariamente) neurônios competitivos com os melhores do mundo, e ser uma organização aberta, sem “paredes”, sem hierarquias artificiais, sem feudos, servindo da forma mais ampla possível uma comunidade nacional que compete entre si para usá-lo. A curiosidade científica, a criatividade intelectual, a capacidade de inventar e construir, devem vir antes de tudo o mais. Faço votos de que o CNPEM consiga se manter na rota de especialização traçada lá atrás, única garantia de seu sucesso institucional no longo prazo. Trocar esta visão de longo prazo por benefícios de curto prazo seria uma opção equivocada.

*Prof. Cylon Gonçalves da Silva – Ex-diretor do LNLS e ex-diretor geral da ABTLuS, professor emérito da UNICAMP, pesquisador emérito do CNPq, membro da Academia Brasileira de Ciências.

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